SCARLETT - Alexandra Ripley.pdf

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Scarlett
Alexandra Ripley
Título original: Scarlett
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I
Perdida nas trevas
1
"Isso vai acabar em breve e depois posso voltar para casa, para Tara."
Scarlett O'Hara Hamilton Kennedy Butler estava de pé, sozinha, um pouco
afastada dos outros, no funeral de Melanie Wilkers. Estava chovendo e os homens e
mulheres vestidos de preto erguiam guarda-chuvas negros por cima da cabeça.
Apoiavam-se uns nos outros e as mulheres choravam, partilhando o desgosto e o
abrigo.
Scarlett não partilhava nem o chapéu, nem a sua mágoa com ninguém. Rajadas
de vento empurravam a chuva para debaixo do chapéu, formando fios de água gelada,
que a picavam e lhe escorriam pelo pescoço, mas ela não se dava conta. Não sentia
nada, estava atordoada pela perda. Choraria mais tarde, quando fosse capaz de
suportar a dor. Mantinha-a afastada de si, a dor, os sentimentos, e os pensamentos. Só
não afastara as palavras que se repetiam uma e outra vez na sua cabeça, as palavras
que prometiam a cura da dor que estava para vir e força para sobreviver até estar
curada.
"Isso vai acabar em breve e depois posso voltar para casa, para Tara."
"... as cinzas retornam às cinzas, o pó ao pó..." A voz do pastor penetrou a
concha do seu entorpecimento, e as suas palavras ficaram gravadas. "Não!", gritou
Scarlett para dentro. "Melly, não. Aquele não é o túmulo de Melly, é grande demais, ela
é tão pequenina, os seus ossos não são maiores que os de um passarinho. Não! Ela
não pode estar morta, não é possível."
Scarlett abanou a cabeça com força, negando a cova aberta e o caixão de pinho
sem ornamentos que estava sendo descido. Na madeira macia viam-se pequenos
semi-círculos, marcas deixadas pelos martelos que tinham pregado os pregos para
fechar a tampa sobre o rosto em forma de coração, suave e cheio de amor de Melanie.
"Não! Não podem, não devem fazer isto, está chovendo, não podem pô-la na
chuva, vai molhá-la. Ela é tão sensível ao frio, não podemos deixá-la no frio e na
chuva. Não consigo olhar, não agüento, não posso acreditar que ela se foi. Ela me
ama, é minha amiga, a minha única amiga verdadeira. Melly me ama, não ia me deixar
agora, exatamente quando mais preciso dela."
Scarlett olhou para as pessoas que rodeavam a sepultura e foi invadida por uma
cólera ardente. "Nenhum deles se importa como eu, nenhum deles perdeu tanto quanto
eu. Ninguém sabe como eu a amo. Mas Melly sabe, não sabe? Sabe, tenho de
acreditar que sim."
"No entanto, eles nunca acreditarão nisso. Nem Mrs. Merriwether, nem os
Meades, nem os Whitings, nem os Elsings. Olhem para eles, amontoados à volta de
índia Wilkes e Ashley, parecem um bando de corvos molhados nas suas roupas de
luto. É verdade que estão a confortar a tia Pittypat, embora todo mundo saiba que ela
chora horrores por tudo e por nada, até mesmo quando deixa queimar uma torrada.
Nem lhes passa pela cabeça que talvez eu também precise de um pouco de carinho,
que era mais chegada a Melanie que qualquer deles. Agem como se eu nem estivesse
aqui. Ninguém me ligou nenhuma vez. Nem sequer Ashley. Ele sabia que eu estive lá,
durante aqueles dois dias horríveis depois de Melanie morrer, quando precisou de mim
para arranjar as coisas. Todos sabiam, até índia, berrando para mim que nem uma
cabra. 'Como que é que havemos de fazer com o funeral, Scarlett? E a comida para as
pessoas? E o caixão? E os carregadores? E o talhão no cemitério? E a inscrição da
pedra tumular? E a notícia para o jornal?' Agora amparam-se uns aos outros, chorando
e gemendo. Bem, não lhes vou dar o prazer de me verem chorar, aqui sozinha, sem
ninguém em quem me encostar. Não posso chorar. Aqui não. Ainda não. Se começo a
chorar, talvez não seja capaz de parar. Quando chegar a Tara já posso chorar."
Scarlett ergueu a cabeça, cerrou os dentes para impedir que batessem de frio e
para agüentar os soluços que lhe subiam à garganta. "Isso vai acabar em breve e
depois já posso voltar para casa, para Tara."
Ali, no cemitério Oakland de Atlanta, Scarlett via-se rodeada pelos pedaços
quebrados que constituíam a sua vida desfeita. A alta espiral de granito, uma pedra
cinzenta coberta de água cinzenta, era um sombrio monumento a um mundo que
desaparecera para sempre, o mundo despreocupado da sua juventude, antes da
guerra. Era o Monumento da Confederação, símbolo orgulhoso da coragem impensada
que mergulhara o Sul na destruição, carregando os seus estandartes brilhantes.
Representava tantas vidas perdidas, os amigos da sua infância, os galãs que lhe
tinham implorado valsas e beijos, nos tempos em que o maior dos seus problemas era
saber qual dos vestidos de baile, com grandes saias rodadas, devia usar.
Representava o seu primeiro marido, Charles Hamilton, irmão de Melanie.
Representava os filhos, os irmãos, os maridos, os pais de todos os presentes, que,
encharcados, se juntavam na pequena colina onde Melanie estava sendo sepultada.
Havia outras sepulturas, outras marcas. Frank Kennedy, o segundo marido de
Scarlett. E o pequeno, terrivelmente pequeno, túmulo com uma pedra onde se lia
Eugenie Victoria Butler e, por debaixo, Bonnie. A sua última filha, e a mais amada.
Estava rodeada de vivos e de mortos, mas mantinha-se à parte. Parecia que
metade de Atlanta estava ali. A multidão não coubera na igreja e espalhara-se,
formando um largo círculo, irregular e sombrio, em volta daquela amarga mancha de
cor sob a chuva cinzenta, a sepultura aberta, cavada no barro vermelho da Geórgia
para o corpo de Melanie Wilkes.
Na primeira fila estavam aqueles que tinham sido mais íntimos. Brancos e negros,
todos, menos Scarlett, tinham o rosto coberto de lágrimas. O velho cocheiro, o tio
Peter, formava, juntamente com Dilcey e Cookie um negro triângulo protetor à volta de
Beau, o confuso filho de Melanie.
Estava lá a velha geração de Atlanta, com os poucos descendentes que
tragicamente lhe restava. Os Meades, os Whitings, os Merriwethers, os Elsings.
Estavam as suas filhas e genros, estava Hugh Elsing, o único filho vivo, aleijado,
estava a tia Pittypat Hamilton e o irmão, o tio Henry Hamilton, tendo esquecido a sua
zanga de anos no desgosto comum pela morte da sobrinha. Mais nova, mas parecendo
tão velha como os outros, índia Wilkers protegia-se no interior do grupo e observava o
seu irmão Ashley com uns olhos sombreados pelo desgosto e pela culpa. Como
Scarlett, ele estava sozinho. Tinha a cabeça descoberta, à chuva, sem se dar conta
dos chapéus que lhe estendiam para se abrigar, sem se aperceber da chuva gelada,
incapaz de aceitar a finalidade das palavras do pastor ou o estreito caixão que estava a
ser descido para a cova lamacenta e avermelhada.
Ashley, alto, magro e sem cor, o seu cabelo louro-pálido, agora quase grisalho, o
rosto pálido e marcado tão vazio como os olhos cinzentos, que olhavam em frente, sem
nada verem. Mantinha-se direito, numa atitude de saudação, a sua herança dos anos
em que usara a farda cinzenta de oficial da Confederação. Estava imóvel, sem sentir,
nem compreender.
Ashley. Ele era o centro e o símbolo da vida arruinada de Scarlett. Por amor a ele,
ignorara a felicidade que tivera à mão. Afastara-se do marido, sem ver o seu amor por
ela, sem admitir que o amava, porque o seu desejo por Ashley se metera sempre no
meio. E agora Rhett partira, marcando apenas a sua presença ali com um ramo de
flores, quentes e douradas como o Outono, um ramo entre os demais. Atraiçoara a sua
única amiga, desprezara o amor leal e persistente de Melanie. E agora Melanie partira.
E até mesmo o amor de Scarlett por Ashley desaparecera, pois compreendera - tarde
demais - que o hábito de amá-lo há muito que substituíra o próprio amor.
Não o amava, nem voltaria a amar. E, agora, quando ela já não o queria, Ashley
pertencia-lhe, a herança que Melanie lhe deixara. Prometera a Melanie que tomaria
conta dele e de Beau, o filho deles.
Ashley era a causa da destruição da sua vida. E a única coisa que lhe restava
dela. Scarlett mantinha-se à parte, sozinha. Entre ela e as pessoas que conhecia em
Atlanta só havia uma distância fria e cinzenta, distância essa que Melanie preenchera
em tempos, afastando-a do isolamento e do ostracismo. Sob o guarda-chuva, no local
onde Rhett devia estar para protegê-la com os seus ombros largos e o seu amor, havia
apenas um vento úmido e frio.
Manteve o rosto erguido, enfrentando o vento, aceitando a sua investida sem
senti-lo. Tinha todos os sentidos concentrados nas palavras que constituíam a sua
força e a sua esperança.
"Isso vai acabar em breve e depois já posso ir para casa, para Tara."
- Olhe para ela - sussurrou uma senhora com um véu negro para a companheira
que partilhava o seu chapéu. - Dura como pedra. Disseram-me que durante todo o
tempo em que esteve tratando do funeral, nem sequer verteu uma lágrima. Toda
negócios, a Scarlett. E sem coração.
- Sabe o que dizem as pessoas - respondeu-lhe um murmúrio. - Tem coração que
chegue para Ashley Wilkes.
- Acha que eles chegaram mesmo a...
As pessoas que estavam perto mandaram-nas calar, mas ambas pensavam a
mesma coisa. Todos pensavam. Ninguém conseguia ver a dor nos olhos ensombrados
de Scarlett ou o seu coração desfeito sob a luxuosa pelica de pele de foca.
O tenebroso som cavo da terra caindo na madeira fez Scarlett cerrar os punhos.
Tinha vontade de tapar os ouvidos, de gritar bem alto - qualquer coisa que a impedisse
de ouvir o terrível som da sepultura que se fechava sobre Melanie. Mordeu
dolorosamente os lábios. Não ia gritar, nunca.
O grito que estilhaçou a solenidade do ato veio de Ashley.
- Melly... Mell... eee! - E novamente: - Mell... ee. - Era o grito de uma alma
atormentada, cheia de solidão e medo.
Avançou aos tropeções para o fundo buraco lamacento, como um homem
subitamente cego, as mãos procurando a pequena e suave criatura que fora toda a sua
força. Mas não havia nada para agarrar a não ser a chuva fria, que caía em fios
prateados.
Scarlett olhou para Tommy Wellburn, para o Dr. Meade, para índia, para Henry
Hamilton. "Por que é que não fazem nada? Por que é que não o agarram? Alguém tem
de o fazer parar!"
- Mell... eee...
"Pelo amor de Deus! Vai partir o pescoço e eles estão ali de pé, olhando
estupidamente, vendo ele balançar na beira da cova.
- Ashley, pára! - gritou ela. - Ashley! - começou a correr, escorregando e
resvalando na erva molhada. O guarda-chuva, que atirara para o lado, rolou pelo chão,
empurrado pelo vento, até ficar preso no amontoado de flores. Agarrou Ashley pela
cintura e tentou afastá-lo do perigo. Ele lutou com ela. - Ashley, não faça isso. - Scarlett
lutava contra a força dele. - Agora Melly já não pode te ajudar. - A sua voz era dura,
tentando penetrar a dor surda e demente de Ashley.
Ele parou, deixando cair os braços. Gemeu baixinho e depois o corpo abateu-se
nos braços de Scarlett, que o amparou. Só quando estava quase a largá-lo, devido ao
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